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Mariama Bâ, feminista senegalesa essencial, enfim é editada no Brasil (Por Vanessa Oliveira)

Mariama Bâ, feminista senegalesa essencial, enfim é editada no Brasil (Por Vanessa Oliveira)

Vanessa Oliveira é jornalista, doutora em ciências sociais e professora de jornalismo das universidades Mackenzie e PUC, em São Paulo. O texto abaixo foi publicado no dia 09 de dezembro de 2023, na Folha de S.Paulo.

 

Quem pega o livro "Uma Carta Tão Longa" sem conhecer a fama que precede a autora não desconfia do valor do conjunto de páginas que tem nas mãos.

Embora bonito, o projeto gráfico não chega a revelar o peso de Mariama Bâ, uma das primeiras senegalesas a usar sua escrita para defender os direitos das mulheres africanas, em geral. A obra, com orelha de ninguém menos que Cidinha da Silva, chega ao Brasil quase 45 anos após sua primeira publicação, em 1979.

O lançamento pioneiro no circuito comercial foi precedido pela discussão acadêmica; no início de 2023, a pesquisadora Mayana Soares Borges Leitão defendeu uma dissertação de mestrado discutindo os desafios da tradução feminista e decolonial, a partir do texto original em francês.

A tal carta quem escreve é Ramatoulaye à amiga Aïssatou, contando seus percalços ao perder o marido polígamo, que a abandonou com 12 filhos quando decidiu construir uma segunda família ao lado de uma mulher anos mais nova do que ele.

O texto, dividido em capítulos curtos, revisita o passado e dele vão se desdobrando histórias não só sobre um luto religioso complexo e cheio de mágoas, como também inúmeras discussões latentes na sociedade senegalesa da época: os conflitos da transição de um regime colonial para a "modernidade", os imbróglios causados pela poligamia, os desafios para a conquista dos direitos das mulheres e, principalmente, a solidariedade entre elas.

A representação desta parcela da população na política também surge em tom ácido, bem como as tensões entre a tradição rígida da sociedade, o modo de vida religioso e o questionamento necessário para a melhora nas condições de vida das mulheres.

O livro pode ser lido, sem dúvida, com referências a aspectos da vida pessoal da autora, ainda que não seja autobiográfico. Mariama Bâ nasceu em 1929, perdeu a mãe muito cedo e foi criada pelos avós, responsáveis por sua educação tradicional.

Ao mesmo tempo em que estudava na escola corânica, foi incentivada pelo pai, à época ministro da Saúde do país, a entrar na Escola Normal —instituição de ensino colonial que começa a entreabrir as portas do mundo do trabalho às mulheres. Escritora e feminista, ela foi casada três vezes e teve nove filhos, a maioria mulheres. Morreu de câncer aos 52 anos em 1981, dois anos após a publicação de "Uma Carta Tão Longa".

Sem romantismo com a educação francesa ou ilusão quanto à perfídia das ideologias ocidentais, Bâ trata as tradições com profundo respeito, mas também ironia, tanto no livro quanto em sua militância.

Desenvolveu várias organizações voltadas ao planejamento familiar e aos direitos das mulheres incluindo o seu Cercle Fémina. Em 1980, ganhou o Prêmio Literário Noma na Feira do Livro de Frankfurt, o que a alçou ao título de um dos grandes destaques da literatura africana do século 20.

A leitura de Bâ desvenda uma poligamia da qual a autora foi uma ferrenha crítica. Apesar de aceita como tradição, segundo a autora, a prática tende a abandonar mulheres a sua própria sorte.

"Quantos sonhos alimentamos desesperadamente, sonhos que poderiam ter se concretizado em felicidade durável e que nos frustramos para abraçar outros homens que lamentavelmente estouraram como bolhas de sabão, deixando-nos de mãos vazias?", pergunta Ramatoulaye à Aïssatou que, diferentemente da viúva, rompeu com a tradição e se aventurou com os filhos pelo mundo.

Ao escolher caminhos distintos, as amigas se apoiam ora contando suas angústias, ora resolvendo de modo prático a vida uma da outra. "A amizade tem grandezas desconhecidas ao amor", diz a personagem principal à amiga, apesar do coração partido.

"Uma Carta Tão Longa" é de forte beleza ao mesmo tempo em que desnuda o patriarcado com acidez dolorida. A profundidade emocional das histórias dessas mulheres universaliza a opressão e mostra que ela independe do fundamentalismo religioso, da poligamia, de classes sociais e etnias, resistindo a diferenças territoriais, jurídicas e culturais.

Mariama Bâ fala de violências persistentes. E faz da poesia um alerta: não há saída sem luta política emancipatória.

Uma Carta Tão Longa

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