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Nossos finalistas do Prêmio Jabuti 2021

Nossos finalistas do Prêmio Jabuti 2021

E não é que fomos quatro vezes finalistas do Prêmio Jabuti 2021? E levamos o prêmio na Categoria Contos! O Jabuti é o prêmio literário brasileiro mais conhecido e celebrado, conferido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Ficamos superfelizes, porque classificamos dois livros na categoria de contos: Flor de gume, de Monique Malcher (nosso ganhador!), e Cem vezes uma, de Ana Brêtas. E, também, Desmemória, de Thalita Coelho, na categoria Romance de Entretenimento, e Intolerância Religiosa, de Sidnei Barreto Nogueira, em Ciências Humanas.  

Ficamos surpresas com o reconhecimento, pois até há bem pouco tempo o Prêmio Jabuti era um retrato do mercado editorial: todo trabalhado em homens, brancos, cis. Estamos conseguindo furar essa bolha, o que tem um gostinho todo especial para nós, que trabalhamos para amplificar as vozes da literatura brasileira e trazer mais diversidade para a área e para o País como um todo.  

Quero contar pra vocês umas histórias sobre esses quatro títulos, porque todos esses livros são importantes demais!

 

Flor de gume, de Monique Malcher 

Como diz o título, os contos dessa autora paraense são um encontro de extremos, a flor e o gume. O texto é tão afiado que, ao terminar a leitura, você está em pedacinhos. Mas também tem a sensação de que se banhou em água doce quando sabe dessas mulheres resistentes em formação, como define Jarid Arraes, que editou o livro, em seu texto de apresentação. O livro é todo mulheres e todo violência, porque essas duas palavras – no Brasil especialmente – aparecem demais na mesma frase.

As mulheres de Monique são conscientes de sua ancestralidade e de seu papel para as gerações que vêm. Os contos trazem meninas feridas e as cicatrizes que ficam na pele delas depois que se tornam mães e avós – o diálogo entre memória e presente faz parte dessa maré geracional.   

Monique vem de Santarém, no sul do Pará, e não para nunca de estudar e de criar. Colagista muito talentosa, são dela as imagens do livro, na capa e na abertura dos capítulos. Uma pessoa forte e doce que dá muito prazer de conversar. Uma mulher completamente merecedora do reconhecimento que o Jabuti trouxe ao seu livro, somos muito felizes por tê-la por aqui.

 

Intolerância religiosa, de Sidnei Barreto Nogueira 

Pesquise no Google: terreiro incendiado. O resultado são notícias e mais notícias sobre terreiros de religiões de matriz africana incendiados, vandalizados e depredados em todo o País. Segundo uma dessas notícias, do jornal Correio Braziliense, apesar de apenas 0,2% da população de Brasília ser praticante dessas religiões, mais de 59% dos crimes de intolerância religiosa têm esses grupos como alvo. 

É nessa ferida que Pai Sidnei de Xangô, babalorixá de São Paulo, com mestrado e doutorado em Semiótica e Linguística pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, toca em seu livro.  

Além de definir o conceito de intolerância religiosa, ele traça uma linha histórica das principais tragédias humanitárias que já ocorreram por conta desse preconceito. E é um problema que me parece dos mais difíceis de resolver: se uma pessoa acredita que seu deus é único e que ela e os demais fiéis têm a missão de criar um exército para defender esse deus, como ela pode aceitar a multiplicidade de manifestações religiosas que há em todo o mundo?  

Informação sempre ajuda. De forma simples e clara, mas com o objetivo explícito de apontar as contradições entre as doutrinas religiosas e suas práticas, Pai Sidnei ganhou o júri do Prêmio Jabuti e ficou entre os cinco finalistas da categoria Ciências Humanas. O martelo de Xangô sempre faz justiça.   

 

Desmemória, de Thalita Coelho 

Victória tem a capacidade de ler as memórias de outras pessoas, e muito provavelmente é por isso que sua esposa, Ana Cristina, está em coma no hospital há cinco meses, sem nenhum diagnóstico médico conclusivo.  

É muito difícil classificar um livro em uma categoria só, e os nossos são especialmente fora da casinha. Foi toda uma discussão aqui na equipe pra decidir se íamos inscrevê-lo nessa nova categoria de Romance de Entretenimento. Por seu texto muito direto, fluente e fácil de ler, e por ser uma história com pitadas de fantasia, decidimos assim. Como se não bastasse, juntamos na equipe a artista e tatuadora pernambucana – atualmente morando em Portugal – Scarlath Louyse, que conseguiu captar a alma de Ana, Vic e da lagartixa (a lagartixa é fundamental nesse livro!) e traduziu lindamente nas ilustrações de Desmemória

E emplacamos um romance lésbico, que fala de relacionamentos tóxicos e de saúde mental, de autocompaixão e de entender os limites dos outros e os seus próprios, de sororidade e de encontrar seu lugar no mundo, na lista dos melhores romances de entretenimento de 2020. Tá bom pra você? 

 

Cem vezes uma, de Ana Brêtas 

“Lute como uma velha.” Essa é a frase que a autora colocou em seu WhatsApp, e toda vez que vou mandar uma mensagem pra ela, abro um sorrisão.  

Ana é enfermeira, socióloga, professora, mediadora de leitura, facilitadora de oficina, educadora popular. Depois de 33 anos trabalhando como professora dos cursos de Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela se jogou na literatura. 

Começou a fazer cursos, fez a pós em formação de autores do Colégio Vera Cruz, escreveu, rabiscou, escreveu de novo, ganhou um Proac e chegou à Janda pelas mãos da Laura Del Rey, da Editora Incompleta, que além de editora é designer, cineasta e nossa parceira no livro Terra Fresca da Sua Tumba. Laura é quem fez a capa do livro, e traduziu tão bem essa figura que é a Ana: uma mulher de cabelos brancos e curtos, baixinha, que fala palavras revolucionárias de um jeito calmo e tranquilo, e que também sabe brincar.  

Depois de passar anos levando seus alunos para conhecer e atender a população em situação de rua de São Paulo, Ana entendeu que envelhecer também é um privilégio em um país de tantas desigualdades.  

Em seus cem brevíssimos contos, cujos títulos sempre remetem a uma brincadeira infantil, ela fala sobre gente de todas as gerações, com o olhar de quem tem o orgulho de saber que é velha.  

 

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Por Lizandra Magon de Almeida - Editora, tradutora, repórter e poeta, nessa ordem. Adora cozinhar, mas gosta ainda mais de comer e conversar em volta da mesa. Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, é diretora editorial e proprietária da Editora Jandaíra.

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