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O mercado editorial em números (ou na falta deles)

O mercado editorial em números (ou na falta deles)

Enquanto o mundo todo – e, no Brasil, muitos setores produtivos industriais e de serviços – discute como se inserir na lógica do big data, criando métricas que norteiem seus próximos passos, o mercado editorial brasileiro continua tateando no escuro no que diz respeito a números e rankings.

Justamente por falta de dados objetivos, não sou capaz de falar pelo mercado como um todo. Mas posso falar pela minha editora e pelo que acompanho do mercado de feiras independentes, colaborando na organização da Casa da Porta Amarela (que aconteceu na Flip de 2016 a 2018 anos), participando de muitos eventos e vendendo em pequenas livrarias.

Quando transformei minha empresa prestadora de serviços em editora em 2014, tinha muita experiência em produzir livros e pouca em vendê-los. Entramos em uma distribuidora e lentamente fomos abrindo caminho, com distribuição direta, para uma miríade de livrarias, tentando atingir aos poucos todo o Brasil. As grandes redes, com o perdão da palavra, sempre nos esnobaram. Não enxergaram potencial nas discussões sobre questões da mulher e nas autoras brasileiras que propomos em nosso catálogo.

Apesar disso, de lá para cá, fomos nos aproximando cada vez mais dos coletivos de mulheres que demandam seu espaço no mercado literário e na sociedade como um todo. Com Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, de Jarid Arraes, lançado em 2017 as coisas começaram a mudar. Redes menores e mais estruturadas como Travessa, no Rio, e Martins Fontes, em São Paulo, e Blooks, no Rio e em São Paulo, se tornaram parceiras.

E com a chegada da coleção Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro, em março de 2019, mudamos de patamar. Nossas vendas explodiram nas distribuidoras, e nosso faturamento passou a ser ainda mais expressivo em redes como Travessa e Martins Fontes, e em todas as outras pequenas livrarias (em número cada vez maior) que nos vendem. A importância do nosso e-commerce aumentou muito também.

Estamos chegando ao número de 100 mil exemplares vendidos dos oito títulos da coleção e só recentemente, a partir de maio de 2020, chegamos a algumas listas de mais vendidos, na Veja, na Publish News, na Estante Virtual – porque agora estamos em pontos de venda auditados.

Então quem mensura meu crescimento?

No Dia do Editor, organizado pela Liga Brasileira de Editoras (Libre) dentro da programação da Primavera Literária no Rio de Janeiro em 2019 (saudades de eventos presenciais nesse mundo pandêmico, né?), falei sobre isso ao lado de Daniel Louzada, da carioca Leonardo da Vinci, e Ismael Borges, gestor da ferramenta Bookscan, da gigante norte-americana da pesquisa de mercado Nielsen.

Para Louzada, que organizou um ranking de pequenas livrarias e esporadicamente divulga listas de mais vendidos por essas lojas, estamos falando de dois mercados. “O produto pode ser o mesmo, livros, mas o mercado das pequenas editoras e das pequenas livrarias não é igual, são lógicas totalmente diferentes. É como o empório e o supermercado”, definiu. Borges, em sua fala, só corroborou a definição do livreiro: para ele, redes como Travessa e Martins Fontes, que não integram o Bookscan, pouco influenciariam nos rankings de mais vendidos com sua participação de mercado.

A Libre reúne mais de 150 associadas de pequeno, médio e algumas de grande porte. No grupo Coesão Independente, do qual também faço parte, mais de 100 pequenas e nanoeditoras estão vivas e produzindo, gerando centenas ou talvez milhares (quem sabe quantos ao certo?) de títulos por ano, vendendo em suas lojas virtuais próprias, nas feiras e em eventos literários interrompidos por enquanto, mas que serão retomados se a pandemia deixar.

Ninguém é capaz de medir o tamanho dessa força.

Os exemplares da coleção Feminismos Plurais que já colocamos no mercado desde seu lançamento em abril de 2019 devem indicar também uma mudança no público leitor que, aparentemente, as pesquisas oficiais de leitura também não registram.

Um público sempre à margem da dita alta cultura, da ranqueada alta literatura, ampliou seu acesso ao consumo em (saudosos) governos passados. E conheceu novos canais para consumir os produtos que lhes interessam. Talvez fosse a hora de as editoras criarem seus próprios rankings. Sistemas ERP dedicados ao livro podem ser um primeiro passo para a consolidação desses dados. Ainda não se daria conta das nanoeditoras, que não usam ainda esses sistemas, mas já traria para a mesa outros players e geraria uma dimensão melhor do mercado.

 

Em um evento no qual participei no Centro de Formação do Sesc, em São Paulo, um profissional de vendas me perguntou se a crise de Cultura e Saraiva tinha sido boa para as pequenas editoras. De uma maneira desdenhosa, eu poderia dizer que em nada me afetou, já que nunca tivemos muito acesso a essas redes. Mas, como empresária, não posso me contaminar pelo recalque. Nunca é bom que livrarias e editoras fechem. Para que as pequenas continuem a funcionar, é importante ter várias gráficas e fornecedoras de papel produzindo a preços acessíveis. A Suzano, agora, em meio à pandemia, ameaça cortar o fornecimento de quem não está comprando como antes. É para isso que servem os monopólios. São as grandes redes de vendas e as grandes editoras que dão escala ao mercado. E quanto menos concentração, melhor.

Do nosso lado, porém, sem números que nos representem, praticamente não existimos – e estão aí as políticas de auxílio ao mercado que nunca chegam até nós. Meu exemplo isolado pouco afeta os grandes rankings, mas certamente nosso conjunto de publicadores e públicos de nicho é muito mais expressivo do que demonstram as listas de mais vendidos de publicações tão caducas quanto seus modelos de negócio. Aqui somos de humanas na temática e no trato com autores e fornecedores, somos do acolhimento e da cultura. Mas também não podemos prescindir dos números, nesse mundo de algoritmos e inteligência artificial. Representatividade importa e sua falta dói no bolso. 

 

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Por Lizandra Magon de Almeida - Editora, tradutora, repórter e poeta, nessa ordem. Adora cozinhar, mas gosta ainda mais de comer e conversar em volta da mesa. Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, é diretora editorial e proprietária da Editora Jandaíra.

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